Desde 1997, segundo levantamento liminar do fórum Israeli Psychedelic Trance Experience (http://www.isratrance.com/), há registros de festivais em Israel, Rússia, Japão, Grécia, Brasil, África do Sul, Índia, Suíça, Inglaterra, França, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, México, Áustria, Suécia, Noruega, Finlândia, Argentina, Chile, EUA, Canadá, Portugal, Espanha, Itália, Bélgica, Nepal, Polônia, Hungria, Turquia, Lituânia, República Tcheca, Irlanda, Romênia, Marrocos, Croácia, Malta, Tailândia, Bulgária, Ucrânia, Macedônia, Eslovênia, Eslováquia, Holanda, Zâmbia, Dinamarca, Guatemala e Líbano. Devido a sua expansão em escala global, bem como à cultura estabelecida a partir de Goa que favorece que os freqüentadores das raves sejam viajantes, os festivais contam com uma grande diversidade de origem também do público, não só das localidades onde acontecem.
Os festivais se desenvolveram com base na mesma estrutura das festas de Goa, porém, com o passar do tempo, aconteceu inclusão de novos elementos provenientes da expansão mundial, que aproximou fatores locais da estrutura da mesma, e ainda foram desenvolvidos aspectos próprios, como o princípio PLUR (Peace, Love, Union and Respect).
Atualmente, um festival de música eletrônica é uma festa caracterizada pela longa duração (de 3 a 11 dias), onde músicos e djs (disk jockeys) tocam musica eletrônica em diferentes áreas do espaço comum oferecido pelos organizadores. Ao mesmo tempo, pode-se observar uma área de camping com banheiros (químicos ou de alvenaria), um jardim de infância com monitores que organizam atividades com as crianças enquanto os pais estão pela festa, além do mercado de alimentos e artigos em geral. Posto médico e posto de informações também estão presentes na estrutura destes festivais. Toda esta estrutura é disponibilizada a partir de mapas impressos, que são entregues na entrada junto da programação de atividades e apresentações. Cria-se, literalmente, uma cidade temporária onde o público convive por 24 horas do dia.
Retomando Goa, cabe citar que os geradores a diesel ainda estão presentes para gerar energia para a festa, apesar de alguns festivais já desenvolverem pistas de dança experimentais baseadas em energia solar. As caixas de som agora aparecem em maior volume e qualidade. As luzes negras também permanecem, mas em maior quantidade e intensidade. Os estímulos visuais fluorescentes baseados em símbolos hindus são ainda muito comuns nos festivais atuais, somados a diversos outros, como lasers coloridos, telões de alta definição projetando imagens fractais e totens tribais pintados também com tinta flúor.
Atualmente, como são oferecidos diferentes espaços para execução de músicas, não mais são executadas exclusivamente faixas eletrônicas dançantes, mas todo o tipo de música eletrônica. Os festivais contam normalmente com no mínimo duas áreas musicais, a pista de dança, onde a música dançante é executada, e o chill out, onde é aberto um espaço para estilos gerais de música eletrônica e até mesmo, em menor escala, para músicas convencionais, ditas “orgânicas”. Alguns festivais possuem não dois, mas diversos espaços para música, normalmente divididos por estilos diferentes: trance, house, techno, ambient, etc.
Diversas atividades artísticas e culturais acontecem simultaneamente no evento, como oficinas de pintura, literatura, astrologia, teatro e expressões corporais, culinária, medicina alternativa, cinema, meditação. Acontecem palestras dos mais diversos temas, como aquelas relativas ao calendário Maia e a cultura psicodélica hippie dos anos 60. Dentro do universo rave, Terence McKenna e Alex Grey podem ser mencionados como os mais notáveis palestrantes presentes em seus festivais (St John, 2004).
O mercado dos festivais é, depois do público, onde se encontra a maior variedade de origens. As roupas e acessórios são comumente originários da Índia e da Tailândia, mas também é possível encontrar artigos indígenas brasileiros ou mapuches chilenos. Ao mesmo tempo, é encontrado vestuário “flúor” (ou fluorescente), produzidos nos EUA, na Inglaterra e na Alemanha, com material sintético, em confecções especificas para o público das festas rave. Esculturas e pinturas dos mais diversos estilos, de artistas das mais diversas origens, também são encontrados no mercado dos festivais. Cds e dvds sempre relacionados às raves também são encontrados com facilidade. Na área de alimentação é possível comer pratos típicos de diversas localidades como Japão, Índia e China, ou até refeições tibetanas ou tailandesas. O açaí e a caipirinha são os marcos brasileiros em meio à cultura dos festivais contemporâneos.
Assim, baseados nessa estrutura construída em todos os continentes a partir dos anos 90, os adeptos dos festivais vão desenvolver um roteiro de festivais durante o ano, optando por aqueles mais próximos ou mais acessíveis, ou aqueles que os interessam mais, seja pela música ou pelas outras atividades presentes. Dessa maneira, eles atingem o século XXI com uma cultura estabelecida. Anos de reunião em meio às estruturas semi-padronizadas dos festivais, tomando a Internet como meio de propulsão das informações nos períodos que antecedem e sucedem os eventos, todo um processo histórico de desenvolvimento dessa estrutura específica que é reverenciada de maneira alegórica, tudo isso se torna o conhecimento compartilhado pelos participantes a partir de suas socializações e interações nas festas. Como conseqüência, os indivíduos vão ter um sentimento de pertencimento àquela estrutura, seja a partir de sua história, seja a partir do compartilhamento de seus símbolos, sintetizado no PLUR. Esse conhecimento compartilhado pelos frequentadores pode ser observado como híbrido ao combinar vários elementos de várias origens numa cultura comum.
Fonte: "Os Festivais de Musica Eletronica como Constituintes de Identidades Hibridas" - Rafael Mendes (Dj Pin)

















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